Cantilenas de Goiás: memórias, gênero e patrimônios das culturas negras na obra de Regina Lacerda

Paulo Brito do Prado, Paulo Brito do Prado

Resumo


Os interesses do presente artigo se relacionam à problematização da obra de Regina Lacerda sob a lente das categorias de memória, gênero e patrimônios das culturas negras. Percorrendo sua produção bibliográfica, em paralelo com a sua trajetória, encontramos diferentes questões de gênero que precisavam ser debatidas. Estas vão das estratégias e táticas manuseadas por Regina para ocupar cargo na Comissão Goiana de Folclore até o registro substancial, em seus estudos folclóricos, de mulheres negras e miseráveis. Ainda nesta oportunidade provocamos as limitações da categoria de patrimônio ao que se refere à reverberação, pelo seu canal, da memória de mulheres negras e fragmentos das culturas afro-brasileiras. Ainda que ela tenha representado a cultura negra goiana de uma forma superficial, sua obra parece seguir um caminho inverso e reproduz, pelo som do tambor, crenças e ocupações de agentes emancipados da escravidão. É interessante notar que, embora ela reconheça uma ascendência portuguesa na cultura goiana, seu trabalho segue um caminho oposto e indica fortes permanências das culturas indígena e afro-brasileira. Paradoxalmente a pesquisa realizada por Regina Lacerda deixa evidente muitos legados africanos na linguagem, nas crenças, em cultos religiosos e em personagens que preenchem o cotidiano da cidade. Nossos interesses se aproximam de uma etnografia histórica onde se pretende discutir a cultura, a memória, as identidades e legados patrimoniais afro-brasileiros registrados pela folclorista goiana.

Palavras-chave


Folclore. Gênero. Patrimônio. Regina Lacerda. Memória.

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DOI: http://dx.doi.org/10.18224/mos.v9i2.4962

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